Arquivos da categoria: Sem categoria

Splash!

É de conhecimento geral que a maioria das pessoas tem medo de mudança. Querendo ou não, dá aquele frio no estômago ao pensar num novo caminho.

Eu tenho mais medo de estancar.

O desconhecido vem assustando nossa espécie desde os primórdios da humanidade e a imagem de futuro tende a ser catastrófica. Quando se trata do que está por vir, primeiro vem o medo, a sensação de “e agora?”, e então começamos a planejar, com aquele “e agora?” na cabeça. Calculamos o futuro com informações que temos em mãos, sem pensar que muita coisa vai acontecendo no decorrer do caminho: pessoas, ideias, soluções…Não é engraçado que temos a tendência de embelezar o passado e temer o futuro?

O passado, já foi (obviamente) e por mais difícil que tenha sido, tiramos o melhor dele, deixamos de lado muita coisa ruim ao relembrar, porque sabemos que fez parte do caminho, e se conseguimos algo que queríamos, qualquer caminho que tenha sido traçado, será bonito, pois virou história! E como história, quanto mais obstáculos, mais interessante, desde que o final seja feliz.

No passado, você sabe o final.

O futuro é um plano e uma promessa de que haverá dificuldades. Sempre há. As dificuldades do futuro, por sua vez, nós não sabemos que proporções podem tomar. Não sabemos o final.Você vai tropeçar em algo, e pode ser pequeno ou pode ser algo que te fará ficar sem dormir por umas noites – por várias noites – pois ninguém passa pela vida sem aprendizados ou tropeções. E é aí que o futuro se torna um vilão. Quando algo está para mudar, não há corajoso que não sinta um friozinho na barriga. O medo é normal.

Quando conheci o amor da minha vida e isto implicou numa viagem para a Hungria, fui obrigada a aprender,de uma vez por todas, uma lição sobre medos e mudanças. Não tive muita escolha e o medo de perde-lo acabou ajudando contra o medo de mudar. Tive medo de ficar onde estava, sem ele. Tive medo de estancar naquela vida, que andava sem objetivos. Abria-se a minha frente uma possibilidade de futuro totalmente desconhecida e com possibilidades inimagináveis para mim, até então.

Imagina o medo da garota de 20 anos que jamais viajou sozinha, nem para a cidade vizinha, nunca saiu do país, nunca viajou de avião e sabia um inglês “pobre”… A partir do momento que a viagem começou – pegando o voo com conexão, perguntando direções para um funcionário italiano do aeroporto, que tinha tanto sotaque que eu mal podia entender o que dizia em inglês, entre outras dificuldades – as coisas foram simplesmente sendo feitas, nem era tão assustador. No momento em que estava acontecendo, de alguma forma, parecia mais fácil do que eu imaginava antes de começar,e depois do cansaço de quase 24 horas de viagem, eu estava onde queria e minha aventura já havia se tornado uma história emocionante ao invés do conto de suspense que minha imaginação havia criado.

E os medos foram vários, porque as mudanças foram muitas: medo de não aprender a língua nova, medo de não conseguir me virar sozinha, medo de uma cultura nova, medo do preconceito que podia vir a sofrer, medo de passar necessidade do outro lado do mundo, medo, medo, medo… Imagina se eu só tivesse contado com o medo ao pensar em mudar? Eu aprendi a pensar no objetivo!

Não digo que eu não tenha mais medo. Continuo sentindo um frio na barriga e perdendo umas noites de sono, quando algo está para mudar.Mas eu não conto com o medo, conto com a história.Depois de todo medo, há uma história de superação, um aprendizado. Eu conto com as lembranças que terei, de uma vida interessante e repleta de viradas. Conto com os textos que poderei escrever, conto com a força que vou ganhar, conto com a risada que darei sobre como eu fui boba por ter medo disso ou daquilo!

Tem quem prefira viver a vida em água morna, sem muito estardalhaço, mas eu gosto de pular na água fria – de preferência, espirrando muita água – quando tudo está ficando parado, sem opções. Gosto do choque e do frio na barriga, do “e agora?”. Prefiro entrar numa só, do que ir afundando aos pouquinhos, em dias (ou anos) de pequenas resoluções que só aumentam o desconforto; molhar tudo, de uma vez e criar uma onda paraver onde posso chegar com ela.

Afinal, para que vivemos?

Eu não quero viver para ver passar dias indistintos e insossos. Quero criar lembranças, ter uma história incrível ou engraçada para ser contada. Vou mexendo, vou virando, recriando, espirrando para todo lado… Não vou passar a vida molhando o pé, se posso saltar de bomba.

* * *

“Splash” é uma crônica da escritora e autora parceira Carolina Szabadkai .

Carolina escreve no blog Carol Brasil/Hungria e é autora do livro “Grãos de areia”, disponível em nosso site.

Você encontra mais sobre a autora e seu livro AQUI.

Compartilhe com os amigos  e boa leitura!

ELA

ELA apareceu pela primeira vez em minha vida quando eu tinha 5 anos. Eu não sabia quem ELA era e nem por que  viera. Meus tios lamentavam que eu estivesse em contato com aquele tipo de coisa, me diziam que eu era muito novo para entender. E de fato, eu não entendia.

No dia que ELA apareceu em minha casa, eu paralisia. Sentia algo estranho, uma mistura de medo com ansiedade e curiosidade. Meu pai chorou quando soubemos que minha mãe havia fugido com ELA.

As pessoas falaram. Alguns achavam ótimo que mamãe houvesse fugido. Diziam que ela levava uma vida muito sofrida há algum tempo e que finalmente conseguira se libertar. Outros simplesmente estavam chocados demais para acreditar em sua fuga.

Meu pai chorava, nunca na minha frente. As pessoas sentiram pena de nós, sentiram pena de mim, mas eu simplesmente não entendia.

Fui crescendo e compreendi. Evitei pensar e jamais falei sobre.

Encontrei-me com ELA novamente aos meus 12 anos. Até que demorou. Sempre imaginei que ela me visitaria  quando meu pai começou a beber, porém, demorou anos, até ela me visitar novamente. Depois disso, fui morar com meus tios.

Aos 17 eu estava infeliz. E desejei ter fugido com ELA e minha mãe. Desejei que ELA me buscasse, porém não aconteceu. Por mais que eu tenha tentado, chamado e implorado, ela não apareceu.

Cresci, amadureci e a fase passou. Casei e criei medo de que minha esposa fugisse também. Logo depois, tivemos uma filha, Lúcia, e meu medo anterior, se tornou pavor e pânico. O que me fez uma pai um pouco paranóico, talvez. Sempre estive atento á minha menininha. Eu corria para pegá-la no colo a cada tombo de suas perninhas. Eu olhava envolta, sempre com medo de que ELA estivesse lá.

Felizmente ELA permaneceu a uma distância satisfatória da minha família. Visitou alguns amigos de Lúcia durante a adolescência e chegou perto de minha casa quando levou um de nossos vizinhos. Mas me mantive calmo e tranquilo por anos. ELA não me perturbou, não me preocupou, não me procurou.

Vivi minha vida com minha esposa e minha filha com muita paz. Achei normal quando ELA visitou meus tios, e apesar de ficar um pouco triste, não fora nenhuma surpresa.

Minha filha se casou, minha esposa envelheceu comigo e logo viramos avós de um garotinho.

Em uma noite como outra qualquer, sonhei com a minha vida, com a parte boa. Com minha filha, minha esposa, meu neto. Tive a sensação de trabalho bem feito, de missão concluída. Senti calor. Senti amor. E quando abri os olhos, eu a vi. ELA. E não era como eu imaginava, muito menos como os filmes mostravam. Era bonita como uma moça em plena juventude e transmitia tranquilidade como uma mãe experiente e dedicada.

ELA sorriu e eu retribuí.

ELA estendeu os braços oferecendo um abraço.

Eu me levantei. Vi minha esposa deitada ao meu lado, dormindo, serena. Vi o porta retratos no criado mudo, os sorrisos de minha filha e meu neto.

Eu estava completo.

Era hora.

Caminhei até ELA e ELA me envolveu em seus braços. Senti o amor, a paz, a leveza. E então nós fugimos.

Fugimos para o infinito.

***

14572798_760343834106192_5020986095656256371_n

Ana Luiza Oliveira – blogueira, escreve na fan page do canal do Youtube Só que nãoé estudante de Jornalismo e colaboradora do blog da Livraria virtual Sanfer Livros.

Palavra de Autor – Carolina Szabadkai

Outonos

Morar em outro país, por mais bonito, mais maravilhoso que ele seja, tem suas dificuldades para uma brasileira tão ligada à família e à pátria, como sou. Não foi planejada, nem mesmo desejada a mudança em si, mas fez parte do pacote de uma vida com minha cara metade e sou muito grata por ter um pacote tão generoso.

Sou brasileira, do interior de São Paulo, com uma família linda, grande e unida, onde todos se encontram no final de semana para um churrasco, meus primos são como irmãos, meus tios, como pais… Preciso de mais algum motivo para dizer como eu amava viver no Brasil? Mas a vida impõe escolhas e a minha me levou pra longe, mais perto da saudade.

Por outro lado, apaixonei-me pelo meu novo país. Conheci o outono europeu! Cores, perfumes, vinhos… Uma alma romântica corre o risco de não saber mais viver sem isso! E aqui estamos. As folhas estão todas amareladas, alaranjadas, avermelhadas e as pessoas enchem as ruas da cidade quando o sol está um pouco mais quente, para abastecerem-se de brilho, antes do inverno rigoroso.

O inverno também tem seus encantos, mas sentimos muita falta do calor do sol e o outono é um lembrete de que a vida deve ser aproveitada. Parques ficam cheios com famílias e crianças correndo, jogando folhas para cima, pulando nas que já estavam amontoadas… As pessoas saem do trabalho e vão curtir o restinho de sol, tomando um café, uma cerveja ou um vinho com os amigos nas mesinhas dos Cafés na praça central. É preciso apreciar o ar livre e o bom tempo, porque sentiremos falta disso! Viva agora! Tudo brilha em cores quentes para passar o recado.

E o outono define bem como me sinto sempre que estou perto da minha família. Sei que o frio da saudade ainda não chegou, mas que devo armazenar o calor de seus abraços, enquanto os tenho. Eu tenho a consciência de que tenho que aproveitar a companhia dos que amo e sei que aproveito mais do que se morasse na mesma cidade que eles e só os visitasse nos finais de semana. O outono, ou a presença rara da minha família, produzem momentos inesquecíveis, situações intensas, convívio… gratidão.

No verão constante da minha vida no Brasil, com a presença firme do sol, que eu adoro, e da amília, que eu amo, não era necessário dizer algo ou abraçar tanto, eu não me sentia impulsionada a passear com meus pais pelo dia todo e leva-los nos lugares que mais gosto, não convivia com meus padrinhos por semanas ou conversava sobre a vida e como sinto falta deles…

Minha vida de outonos me proporciona isso. Não é o ano todo, são estações, mas as estações demarcam nossa vida de forma muito definida e fazem pensar no futuro, no que gostamos ou não, sobre o que está por vir, a fim de curtir o que pode faltar depois. Agora estou te contando que precisei de estações para fazer o que poderia ser feito no sol constante também. Será que você precisa? Olhe para o seu sol e aproveite a sua presença (mesmo que ele não esteja ameaçando sumir no inverno) e não precisará de outonos para ter momentos brilhantes. Viva, ame, agradeça!

* * *

“Outonos” é uma crônica da escritora e autora parceira Carolina Szabadkai .

Carolina escreve no blog Carol Brasil/Hungria e é autora do livro “Grãos de areia”, disponível em nosso site.

Você encontra mais sobre a autora e seu livro AQUI.

Todo mês o Blog da Livraria virtual Sanfer Livros trará um texto da autora para a  coluna“Palavra de autor”. 

Compartilhe com os amigos  e boa leitura!

Palavra de autor: Erica de Paula.

Auto falantes

Você sabe, eu jamais te beijaria em público. Mas te dou meu coração todos os dias, rapaz.  Os meus olhos, flamejantes. As minhas passadas, os meus passos, os meus códigos, os meus segredos.

Você sabe, pra você, todas as músicas de Adele. Ouvi-la sem te sentir é impossibilidade declarada, assinada com caneta cor de sangue.

Você sabe, eu sou discreta nas minhas relações. Destas, que se arrebentam, se inventam, que explodem, implodem os muros, multiplicam encontros mil vezes, por dentro.  Por dentro, costuro liberdade. Eu não sei ser para os outros. E não faço questão que a minha vida seja um livro secreto, mas protejo as minhas relações dos ácidos alheios a qualquer custo. Consegue me entender?

Não seremos públicos, por agora. Vamos regar primeiro, fazer botão, florescer. Vamos assim, letra por letra, corpo com corpo, copo com copo.

A clandestinidade compõe. As estradas noturnas, os letreiros luminosos dos hotéis, a canção enquanto todos dormem, os detalhes em cetim. Somos vinho que entorpece, quadro que aviva, mãos dadas a longo alcance. Somos para nós e não seremos para outros até explodirmos em estrelas.

Não é uma questão de guardar segredo, mas de compor fio a fio a meada que nos envolve, que nos dissolve um, que nos devolve ao status “namorados”, “namorandos”, “comprometidos”, envolvidos”.

Você sabe, eu jamais te tornaria público. Mas ressoo teu nome como em altos falantes.

 

* * *

“Auto falantes” é um mini conto da escritora e autora parceira Erica de Paula. 

Erica escreve no blog “Erica de Paula” e é autora do livro “O lugar da espera” , disponível em nosso site.

Você encontra mais sobre a autora e seu livro AQUI.

Todo mês o Blog da Livraria virtual Sanfer Livros trará um texto da autora para a  coluna“Palavra de autor”. 

                                Compartilhe com os amigos e boa leitura!11137192_666284136845496_4476230590086186860_n

O Mascarado

Todo dia ela acordava e vestia sua máscara.

A máscara do dia a dia, do sorriso e da alegria. Ela punha a fantasia por medo, por proteção, pois desde jovem aprendera que o mundo é perigoso e as pessoas são cruéis. Apesar de tudo, punha a máscara e tinha uma vida normal. Estudava, tirava boas notas, trabalhava, tinha amigos, frequentava festas, mas nada se comparava a sensação de chegar em casa e tirar sua máscara com um suspiro de alívio, pois conseguira sobreviver mais um dia de boas aparências.

Em um dia como outro qualquer, voltava para casa, ansiosa para se livrar da própria aparência feliz e inabalável, quando percebeu que estava sendo seguida. Parou em uma esquina, olhou para trás e viu um vulto entrando em um beco. Sentiu o rosto queimar, o coração acelerar, mas não podia deixar a máscara cair. Respirou fundo e prosseguiu seu caminho, calma, porém atentamente.

Depois de percorrer quarteirões inteiros começou a entrar em ruas aleatórias para confundir seu perseguidor, até que se viu encurralada em um beco sem saída. Seu pânico era tamanho que sua máscara começava a cair, mas ela não podia deixar acontecer. Inspirou profundamente e se agachou atrás de uma lata de lixo se perguntando o que faria se fosse encontrada. Ela não tinha uma arma, não era corajosa, não tinha força, não tinha dinheiro, a coisa mais preciosa que carregava consigo era seu disfarce que lhe permitia sobreviver todos os dias, algo que não poderia entregar. Ela não voltaria aos tempos perdidos, aos pesadelos, ao sofrimento, ao passado, não agora que sua nova identidade estava lhe proporcionando o mínimo de normalidade e estabilidade.

Encolhida em um beco, na noite fria, ouviu os passos de seu perseguidor se aproximando em um ritmo rápido e incomum. Ela não fechou os olhos, não chorou, não entrou em pânico, simplesmente aguardou pelo encontro inevitável. E então, sob a pouca iluminação do beco, dois olhos brilhantes surgiram no beco, observando-a com atenção e cautela. O vira-lata era grande e ameaçador. Seu pelo era negro e desgrenhado, com o aspecto mais sujo que ela já vira, porém, seu olhos de um verde cintilantes tinham algo a mais.

Hipnotizada pelo animal, a garota não se levantou do chão. O cão encostou sua grande cabeça na dela, dando um pequeno empurrão causando uma onda de pânico que ela conteve rapidamente, permanecendo imóvel. O animal se afastou um pouco, sentando-se a sua frente, e observando-a com seus olhar intrigante e intrigado. Ele parecia olhar pra ela como ela o encarava, com a sensação de que algo estava errado. Depois de uma longa análise, um latido, e desta vez o pânico foi grande demais. A menina saltou e correu em direção do seu prédio, sem olhar para trás.

Estava tão desesperada que não se deu ao trabalho de fechar nenhuma porta do edifício e ao chegar na entrada de seu apartamento, percebeu que o cão estava ali, no final do corredor, observando-a, perto demais para que ela conseguisse se proteger. Ele caminhou em sua direção, calmamente. A garota deixou as chaves do apartamento caírem das mãos trêmulas e o terror tomou conta de seu corpo. Encostou as costas na parede e deslizou por ela até encontrar-se encolhida novamente no chão. Lágrimas rolaram sob sua pele, molhando seus lábios relembrando o gosto salgado de seu passado que tentara esquecer a qualquer custo.

Ela perdera a máscara.

Onde a largara? Quando caíra? Fora o latido? Há quantos anos não chorava? Havia construído tudo aquilo para nada? Todo aquele esforço, aquela aparência, pra isso?

Concentrada em seu próprio desespero, só percebeu a presença do cão novamente, quando seu focinho soprou em seu rosto. Ela o encarou, imóvel, enquanto o animal lambia uma lágrima com toda a delicadeza de seu rosto e então se aconchegava em seu colo. A garota o abraçou e caiu aos prantos, liberando tudo o que havia retido durante todos aqueles anos molhando o pelo do animal. Minutos depois, um pouco mais calma, com as mãos molhadas, acariciou o rosto do cão e suas mãos ficaram pretas. Sem entender passou as mãos pelos olhos do cão novamente, e viu algo estranho, pelos mais claros surgiram dentre a negritude do animal.

Ela levou-o para casa e começou a limpar seu rosto até descobrir que o animal tinha uma pelagem branca misturada à mais escura, e ironicamente, envolta de seus olhos, essa pelagem formava o formato de uma máscara. A garota gargalhou da ironia, o cão brincou na banheira amando seu banho e os dois se viram felizes como não ficavam há anos.

***

14572798_760343834106192_5020986095656256371_n

Ana Luiza Oliveira – blogueira, escreve na fan page do canal do Youtube Só que nãoé estudante de Jornalismo e colaboradora do blog da Livraria virtual Sanfer Livros.

 

Como motivar um leitor adolescente?

Esta semana vi um vídeo que me fez pensar. Uma professora, do ensino médio, explicava uma fórmula de matemática a seus alunos de uma forma, digamos, inusitada. Ela criou uma música, usando uma batida do momento e, além de dançar, os alunos cantaram com ela. Dava para ouvir as gargalhadas dos alunos ao fundo.

Fazendo um paralelo com o meu primeiro contato com a literatura, lembrei de imediato da professora Elizabeth, também do ensino médio, que pediu para que lêssemos Dom Casmurro. Quase chorei quando abri o livro e percebi que não sabia o significado de muitas palavras ali. Mas li. A turma reclamou, mas também leu.

Para avaliar a leitura da turma, a professora propôs um tribunal na sala de aula, com direito a júri, advogados de defesa e acusação, para o caso de Capitu, onde milhões de hipóteses foram levantadas sobre a possível traição da moça. Lembro-me que a aula foi bem divertida e eu saí dali querendo ler todos os clássicos possíveis.

Sei que não é fácil despertar o gosto por livros, quando os adolescentes têm as mãos ocupadas por smartphones. A tecnologia, que deveria ser uma aliada no processo de educação, acaba engolindo a atenção dos alunos. É nessa hora que o educador (e, nesse caso, me direciono a pais também) precisa se reinventar.

Casos como os das professoras citadas são provas disso. Quando alguma mãe de aluno me pergunta como fazer isso em casa, minha dica é: valorize, em um primeiro momento, as preferências literárias deles, depois, indique os clássicos. O importante é que ele estabeleça uma relação de amor com a literatura. Hoje, eles se interessam por quadrinhos, livros publicados por Youtubers, além das distopias já consagradas. O educador precisa se aproveitar desse momento, mergulhar no mundo deles, mostrar interesse, valorizar suas escolhas e assim abrir o caminho para a sugestão de leituras mais rebuscadas.

Talvez muita gente não entenda a importância do hábito de leitura e a diferença que isso causa na vida de um indivíduo. Quando lemos, automaticamente interpretamos aquele conteúdo, o que nos auxilia na interpretação de diversos textos, seja uma notícia, uma receita de bolo (acreditem, algumas precisam de interpretação!), um problema de Física ou uma fórmula matemática.

E quando iniciar este processo? Agora mesmo! Se você tem um filho pequeno, já comece a mostrar livros infantis, deixe que ele os manuseie, folheie, pergunte e até invente histórias sobre as imagens que está vendo, mesmo que ainda não seja alfabetizado. Se for um adolescente, basta leva-lo a uma livraria e deixar que ele escolha sua própria leitura. Depois pergunte o que ele achou, o que gostou e o que mudaria.

Isso faz toda a diferença, pode apostar!

 

aryrecorte

Aryane Silva – escritora, autora do livro “(Re)encontros”, blogueira no “Amor em letras” , estudante de Letras, autora parceira e colaboradora do blog da Livraria virtual Sanfer Livros.

 

5 blogueiros que viveram a Bienal de SP!

Faz pouco mais de um mês que São Paulo recebeu diversos apaixonados por leitura na maior e mais esperada festa literária: a Bienal do livro! Entre estes apaixonados estiveram leitores, autores, editoras, livreiros e muitos blogueiros literários.

E para trazer pra vocês um pouco desta festa, o blog da Livraria virtual Sanfer livros conversou com 5 blogueiros que viveram esta experiência e traz aqui um pouco das expectativas, das impressões, dos momentos lindos e de outros não tão lindos assim da 24ª Bienal internacional do livro de São Paulo.

U14599678_1801549029932792_2002460147_oma delas é a Aline Silva do blog Livros do coração, que mora em Minas Gerais e foi prestigiar dez dias desta feira linda que é a bienal. Ela já havia participado da edição mineira da Bienal e embora tenha se programado bem para a de SP, admite que foram tantos momentos que ficou difícil acompanhar tudo como imaginava:

“Para um evento do porte da Bienal é necessário se programar, fiz uma lista dos autores queria ver. Mas nos dias que decorreram, confesso que não cumprir nem oitenta por cento dessa lista. É muita coisa, são surpresas e encontros ao mesmo tempo.”, conta a blogueira.

Estar em contato com autores é mesmo um dos momentos mais mágicos de toda bienal. Poder ver e conversar com aqueles que fazem os nossos olhos brilhar e virar noites em páginas e mais páginas é uma das coisas mais legais que este momento proporciona aos leitores.

O Luiz Antonio Fernandes, o canal Bug Literário, saiu do Rio de Janeiro para visitar pela primeira ve14536905_868270956608035_1265869364_oz a feira em São Paulo. O autor já havia participado da edição do Rio de Janeiro, em 2015, e conta que foi quando começou o seu canal literário.

Ele também falou de como são bons estes encontros. Nos três dias no evento pode abraçar autores como Larissa Siriani, Vinicius Grossos, Augusto Alvarenga, Thati Machado, Marcelo Costa, Claudio Manoel, Nicolas Catalano e Jennifer Niven.

 “Não fiz roteiro. A intenção era ir encontrar os amigos e passear pelos estandes. Mas claro que a gente sempre aproveita as surpresas.”, diz o blogueiro, que ressalta que uma dessas boas surpresas foi conhecer a autora americana Ava Dellaira.

Já para a Fernanda Figueiredo do blog Livros Minha terapia, planejar foi essencial.

“Sempre planejo. Fico louca e perdida se eu não planejar. (risos) Mesmo com o planejamento tem uma hora que você se perde. Então planeje-se para não chegar no fim do dia você lamentar que não viu alguma coisa porque não sabia. Com o planejamento, mesmo que não dê para fazer tudo porque a programação é muito apertada, você vai dar-se a chance de escolher o que você vai abrir mão devido aos horários muito próximos dos eventos.” 

Assim como o Luiz, Ferna14593227_1292928770787527_1899165876_nnda também fez a ponte RJ- SP para curtir três dias da bienal. Ela destaca que a feira foi uma oportunidade boa para conhecer outros blogueiros e autores que conhecemos só pelas redes sociais e também fala de outros momentos que muitos leitores curtiram muito na feira:

“Dessa vez as Palestras e bate-papos me despertaram muito interesse.Já fui com três na minha programação.”

Maria Ferreira, do blog Minhas impressões, vive em São Paulo e reviveu todos estes encantos da bienal, a qual não visitava desde os passeios com a escola:

“Vi dias e horários das palestras que tinha interesse, mas também aconteceu de planejar algo e mudar totalmente na hora porque apareceu um evento mais bacana.”14580587_942951725809320_855783087_n

Pela primeira vez como blogueira, Maria curtiu cinco dias do evento e destacou a programação cultural, como os momentos de palestras, como uma das coisas mais legais da bienal. Ainda assim, não abriu mão dos encontros. A blogueira foi pensando em prestigiar o autor Lucinei Campos, e as autoras Clara Savelli,  Aimee Oliveira e Larissa Siriani. Mas como estamos falando de um evento cheio de boas surpresas, conheceu também a autora Carine Raposo e Cátia Mourão.

Para a Michelle Trevisani, do blog Livro doce livro, que também mora em São Paulo, visitar a bienal teve uma emoção dupla: foi sua primeira vez na bienal e ela esteve no último dia da feira. E a gente pode imaginar o frenesi de um último dia de feira, não é?

“Eu já sabia que não teria paciência de ficar em filas enormes. Mas acabei encontrando autores poucos conhecidos que estavam nos stands vendendo seus livros e isso foi tão bacana! Tive conversas muito legais com autores de poesias, de literatura de cordel, muito interessante mesmo!”, conta a blogueira.

14599693_1216483068426593_1302010178_oDuas coisas estavam na expectativa de Michelle: encontrar livros baratos e legais e tirar fotos nos stands que, segundo a blogueira e a maioria dos leitores, estavam lindos demais! E mesmo com alguns pontos inesperados, ela se viu encantada com tudo o que viu:

“É um clima mega diferente – todos lá em busca de livros. A grande maioria amante de livros. Foi maravilhoso perceber que em um mesmo lugar existe tanta gente como eu, com essa paixão deliciosa pelo mundo da leitura… Dá vontade de ficar lá pra sempre, vendo livros e mais livros. Os pontos negativos acredito que sejam a lotação – fila em todo lugar, inclusive para tirar fotos em lugares legais, também os preços de livros em lançamento que estavam pouco convidativos. Mas a mágica do lugar apaga tudo isso! Eu adorei cada momento!”

E falando em preço… Este parece ser o ponto negativo mais comentado entre os nossos entrevistados. E não apenas os preços dos livros estavam altíssimos, como também os preços dos serviços de alimentação e do próprio ingresso. (Alô, Bienal de SP: tenha piedade de nós!rs)

Como ponto positivo destacamos a organização para as sessões de autógrafos. Este ano muitas senhas foram distribuídas on-line e isso facilitou muito o preparo das filas e a vida dos apaixonados por leitura. Outro ponto alto observado nesta Bienal foi a valorização do mercado editorial para os autores brasileiros:

“Espero que continue apostando nos autores nacionais. Tem muita gente boa.”, diz Aline.

“Quero que se propague esse clima de apoio, divulgação e valorização dos autores nacionais, que foi o clima que reinou em SP.”, completa Fernanda.

Os dois pontos parecem andar juntos quando pensamos em uma próxima edição. E como não pensar, não é mesmo? Passa tão rápido que daqui a pouco 2018 está aí com mais expectativas sobre este evento que mexe com tantos corações.

“Na próxima Bienal aqui em SP, eu espero que tenha uma programação tão diversificada quanto a desse ano e que os preços dos livros e da comida não estejam tão caros. Além disso, espero que os autores nacionais possam ganhar mais espaço no evento.”,  conclui Maria.

dddddTodos eles também aproveitaram a oportunidade de levar para casa alguns de seus livros desejados, fazer fotos e muitas anotações para seus blogs e canais.

A Maria, por exemplo, fez um diário de bordo com todos os desafios e as alegrias dessa experiência. O Luiz Antonio mostrou em um vídeo especial as suas compras, os recebidos e alguns dos seus momentos mais legais na Bienal. Já a Michelle fez uma postagem cheia de fotos lindas de cada espacinho visitado por ela no evento, além de ótimas dicas para os leitores que já se animaram em viver a bienal numa próxima oportunidade. Vocês também encontram por aqui mais sobre os momentos de encontros da Aline nesta bienal. E para quem também pretende aproveitar as próximas edições, a blogueira também deixa a dica:

“Sempre esteja com um carregador portátil potente, com roupas confortáveis, garrafa de água, marcadores do seu blog (pois ele é o seu cartão de visita), e uma coisa que não poderá faltar: o sorriso no rosto.”

Já vamos grudar o sorrisão aqui, esperando que 2018 chegue logo! 😉

Um abraço,

Yohana Sanfer

11137192_666284136845496_4476230590086186860_n

Escritora, autora dos livros Da boca pra dentro”, “É de menino, é de menina”, blogueira no “Papel, palavra, coração”, idealizadora do Projeto Visita Literária e criadora da Livraria virtual Sanfer Livros.

Palavra de Autor – Carolina Szabadkai

 

Dos desesperos do amor

 

Dos desesperos para encontrar suas metades, surgiram dúvidas e algumas afirmações bastante negativas; caíram em pensamentos e frases comuns, sem pensar em quem estavam colocando suas forças e desejos, e sim, em como as estavam empregando erroneamente.

Mônica estava certa de que sempre se entregava, era carinhosa e depois desprezada. Com o fim de mais um breve namoro, chorava, sentada em sua cama, jurando nunca mais dizer as três palavras que sempre ansiava por ouvir; jurava, acima de tudo, não entregar mais seu coração daquela maneira, desejando sempre que fosse “Ele”, aquela pessoa pela qual nutria já um amor incontrolável, saído dos filmes e poemas de amor, que tanto adorava… Pensou:

“Basta desses filmes e poemas! Talvez devesse assistir a dramas baseados em fatos reais, que chegavam mais perto do que ela podia esperar da vida.”

Em suas lágrimas fluentes, a vida não se parecia em nada com o final feliz de uma comédia romântica.

Leandro tinha convicção de que se dera demais. Mulheres se aproveitam de homens carinhosos e românticos. Pensou:

“Atenção e tempero, tem que ser na medida certa.”

Sempre ouvira a ladainha de suas amigas, jurando que derreter-se-iam por alguém que as paparicasse, que as tratassem como princesas. Besteira! Elas gostam de homem durão. Como seria ele, no entanto, um durão? E ela parecia tão interessada por ele naquele fatídico dia em que toparam na sorveteria! Ela sorria; ele passava a mão no cabelo. Um começo tímido, singelo… Um fim repentino, brutal.

Sentou-se no meio-fio, naquela rua deserta onde tudo acabara de ter um fim e segurou a cabeça, tentando entender o que fizera de tão errado. O coração estava apertado e ele ainda precisava respirar fundo, enchendo o pulmão daquele ar gelado, antes de tomar o caminho de casa. O nó na garganta reprimia o grito interno, que repetidas vezes soava em sua cabeça como um sino: nunca mais me entrego!

Mas era sempre assim com eles, cada um no seu canto, sem saber da existência do outro: um relacionamento sem final feliz, uns dias de luto e a vida continuava, preenchendo vagarosamente suas esperanças no amor verdadeiro, afinal, já era parte da crença que mantinham. Quando se acredita em algo, não é a razão que vai retirar cirurgicamente aquela ideia repleta de raízes profundas na alma. A história se repete e as frases também: Homem é tudo igual; Mulher é tudo igual.

Um baile a fantasia, em noite de Halloween.

Mônica havia combinado há semanas com as amigas e iriam todas fantasiadas de bruxa. Cada detalhe era importante, afinal, não queria ser uma bruxa velha e malvada, sua fantasia pretendia algo mais perto de uma bruxa-fada, com uma encantadora aparência na roupa preta e chapéu bicudo.

Leandro não estava com vontade de ir, mas seu amigo Maurício não parava de atormentar e até fazer chantagem emocional com a amizade.

– Poxa, Leandro, a Lia vai estar lá e não quero perder de encontrá-la numa festa. Mas também não posso ir sozinho numa festa a fantasia, né cara? Pensa que você pode estar afetando meu futuro. – Maurício fala brincando, mas sabe que o amigo tem uma queda por finais felizes.

– Ta certo, você acha que depois de ter levado um fora esses tempos eu tô ligando pra final feliz de alguém? – Leandro brinca, mas ele liga sim.

A conversa parecia que encaminhava para o não, mas, entre amigos, eles sabiam que estava decidido.

– E o que eu ia usar?

Maurício sorri com a confirmação.

– Não vem com nada de pintar a cara que eu não gosto! – frisa Leandro.

Numa camisa florida, estilo “surfista havaiano”, eles saem rindo e brincando em direção a festa.

Altas horas. Mônica se sentia bem na pista de dança. Leandro partia em direção ao bar para pegar uma cerveja, quando foi atingido no olho esquerdo por um chapéu bicudo.

– Ai!

Mônica virou-se, e viu um sorriso branco com a mão nos olhos.

– Desculpe-me!

– Não foi nada. Eu só perdi um olho, mas tô legal – brincou.

Ele ia quase saindo quando ouviu ela dizer:

– Se fosse grave, te curava com minha magia – completou Mônica, fazendo-o recuar.

E como por encanto, seus olhos se encontraram, como se reconhecessem algo. A si mesmos? Eles sorriram sinceramente, conheceram-se transparentemente e nunca nem pensaram nas promessas saídas de lágrimas e nós na garganta. Era simplesmente natural. Seus sentimentos estavam desprovidos de fantasias e disfarces.

Todos os outros são iguais, se são a pessoa errada. Tudo é diferente quando você acha aquela pessoa especial por quem procurou, a pessoa que te procurou também. É apenas uma questão de persistência e mira.

* * *

“Dos desesperos do amor” é um mini conto da escritora e autora parceira Carolina Szabadkai .

Carolina escreve no blog Carol Brasil/Hungria e é autora do livro “Grãos de areia”, disponível em nosso site.

Você encontra mais sobre a autora e seu livro AQUI.

Todo mês o Blog da Livraria virtual Sanfer Livros trará um texto da autora para a  coluna “Palavra de autor”. 

Compartilhe com os amigos  e boa leitura!11137192_666284136845496_4476230590086186860_n


Fatal error: Call to undefined function twentytwelve_content_nav() in /home/sanferli/public_html/wp-content/themes/sanferlivros/category.php on line 40